Segunda-feira, Novembro 14, 2005

Retratos originais de uma filosofia gráfica (II)

Vivemos no limiar de uma autoridade autista. Um esforço incomportável de inalterância. Uma corda rotativa cuja magnitude de expansão supera a sua ausência de expressão. Uma corda infinita, cercada por vácuo. Uma continuidade onde se inscrevem os momentos inaudíveis a que chamamos passado, presente e futuro.
Mas onde estão esses lugares de contornos tão voláteis quanto a realidade instantânea com que se definem? O que é o presente? Acabou de passar? Está mesmo aqui à porta? E quantos passados já passados eram futuro? E quantos presentes são agora passados mas foram futuros num passado que era posterior a esse presente?
Como que inadvertidamente, os vectores não são concebíveis em experiência verosímil. O repartir do tempo não encaixa numa definição conceptualíssima daquilo que ele próprio define. Não há compartimentos assimiláveis! Há constância de uma única variável! Não há tempos! Há tempo!
O fim e o princípio são as delimitações modificáveis dos vários momentos que nos atravessam, eles próprios em mutação. Fim e princípio co-existem em tudo. Mas não se aplicam ao tempo. Porque ele é soberano sobre todos os momentos! Porque ele é intocável nos seus aluicerces! Nada o condiciona, nada o rege! Não há fim que o silencie, nem princípio que o ilumine!

Terça-feira, Novembro 08, 2005

Silenciados

As vagas de gente confusa. As nuvens e as ruínas na ermida do fogo e do chão fétido. Sem oração nem harmonia, cruzam o gélido hausto de sempre perecer.
Partindo sem mágoa nem lealdade incauta
Ao adquirido futuro.
Vagueiam pela vida deixando fragmentado o protesto.
Caminhando num trilho já realizado por quem nunca visionou a sombra de veludo do nunca querer ascender.
Opressores.
De quem nunca se fez, de quem nunca se quis fazer.
Na morada do herói que nunca se conheceu pela erudição falsa da inverosimilidade da mudança!

Viver mudo numa conversa do sempre ser...

Ensaio contra a rima de um mundo perfeito

Não gosto de regras
As rimas são regras
A ninguém pertence esta escrita
Só a mim
Só àquele que sonha nela
Se evade no outro mundo que não este

Ninguém me dita
Ninguém me critica
Ninguém o pode fazer
Porque isto é meu! De mais ninguém
Quem vem lá avaliar os meus escritos?
Que se atreve?
Quem ousa olhar isto
E dizer que não vale nada?

Atrevam-se!
Queiram invandir um mundo que é só meu!
E depois fujam
Para esse mundo sossegado,
Onde os cães mordem
E as bestas gritam sem paradeiro certo
E todos vivem em haustos sem luz
E cavernas de pensamento hediondo
Onde a rima vos dita as regras
Onde rimais e não sabeis porquê!

Rimem, à vontade
Mas deixem-me em paz!
Rimem-se uns aos outros

Mas eu, se quiser
Não rimo!
E tanto escrevo versos tão longos que não acabam nunca mais
Ou os crio com uma palavra
Só!

Violadores do pensamento!
Sim, vós
Que ousais entrar no pequeno mundo
De uma pequena criança,
Roubar-lhe as fantasias
Saquear todos os sonhos e desejos
Retirar-lhe a infância
Torná-la máquina
Automática
Manipulável

E sou o sonho de mim mesmo
Este mundo perfeito!
Que co-habito em cima dos limites indeformáveis
De uma fronteira que não se finda
E não me divide

Porque nela
Eu posso viver, sendo aquele que me conheço
E não o outro que me habita!

Não me prendam porque não sobrevivo

Quero agora o meu lugar
O meu espaço eterno
Onde não acabo
Nunca!

Retratos originais de uma filosofia gráfica (I)

Sempre a mesma pele. Cansado. Transfigurado pela insónia de uma oportunidade esgotável que se repete como uma esfera de monotonia à qual me aprisiono voluntariamente. A brisa invade-me e presenteia-me com o odor renovável de um anúncio já fruído. E novamente anunciado. A grafia de uma vida, ou de várias vidas, ou de todas as vidas não é a metamorfose infinita com que se reveste no início do incauto processo. É sempre a mesma grafia. É sempre o mesmo odor.
Inesgotável ciclo que se perpetua, hostil e incontornável.
A aprendizagem não decorre da memória, esgota-se nela! A experiência não fortifica o ensinamento, contrapõe-no! Haverá memória no tempo? Haverá experiência cujo tempo não impluda?
Deus? Quem? Imagem idealizável do impossível e eterno esforço? A morte? Vencida repetidamente pelo berço novo? Não. O tempo. Que perenemente nos transporta ao cais do começo. que ocasionalmente nos embarca numa viagem cujo destino está pré-escrito.
Somos porque o somos obrigados a ser. A arte do tempo não tem nada de artístico, nem a sua ciência de científico. É imparável, é indiferente. É desumano. Desconhece hedonismo, despreza o transcendentismo.

Caleidoscópio

Há uma vertigem assinalável que destrói a construção de mim a mim mesmo. Um erudito caleidoscópio cuja multiplicidade de cores ultrapassa a fronteira do meu horizonte atingível...
Rebuscado processo que não define, antes prefere desconceptualizar o esforço autobiográfico a que me voto por medo do incalculável.
É a esta metafísica dos vários que sou, que me condeno, permanentemente! Não sou por inteiro, sou fragmentos. Ou então sou a irreversível e inviolável metamorfose do mesmo. A cascata imprevisível dos diversos que me atravessam.