Terça-feira, Março 14, 2006

Inquietação

Estou inquieto.
Concentro em mim um faro inimputável para a ansiedade
Uma necessidade lírica de procura inconsequente
Uma lente deformadora que transgride a linha da serenidade, que dilui os contornos palpáveis da lisura invernal em que me movimento
Tento viver através da fátua imagem literal que este exterior constrói por mim
Mas não resisto

Sou inquieto.
Sou néscio na minha forma de saborear a existência
Porque não me sento e espero que o brilho das coisas puras me cale e me molde à vontade dos presentes que se sucedem?
Porque tenho eu de interferir no decorrer do tempo?
Porque tenho eu de ver o cheiro que a rua exala?
Porque tenho eu de ouvir a forma do céu impertinente?
Porque tenho eu de sentir os sons que saem das clarabóias da imagem de um gosto pelo colapso de todas as coisas materiais?
Porque sou eu o que procura e não o que atinge a meta?

Vivo nesta solidão socializada, neste engano puro dos olhos que fingem ver o brilho imaculado na fachada de um prédio senil, nesta mentira de caminhar sobre a inconsistência de um volume sem piso.
Vivo através deste olhar de pastor toxicómano, vivo nesta ilusão de fruir a verdade de uma realidade que partilho e não consigo.

Sinto esta chama de propósitos em cada multividência de mim cá dentro
Saio de casa e sou incauto nas minhas tendências para a funcionalidade
Caminho só e livre
Porque só sou verdadeiramente livre quando estou só
Só sou verdadeiramente verdadeiro quando me sinto a mim e não aos outros
Rumo ao impasse de um trajecto mil vezes consumido
E ele é outro, é todos, é um só na sua multitude de existências
E forçosamente não percebo que ele é sempre o mesmo

Depois disto quem me forja uma identidade?
Quem me liberta da pena a que me condenei por existir nesta dimensão da essência
Da essência de algo que não é essencial?
Essencial sou eu mais esta essência mais este perene fardo que transporto
E todas as verdades do mundo que não passam de mim mesmo para o mundo
Ficam cá, ganham fungos de tanto permanecerem
Germinam novas características da mesma coisa
Coisa que se perpetua
Coisa que não é coisa, são coisas.

Ah a verdade de um poema já escrito!
E a mentira daquele que está cá dentro!
Que dualidade?
A dualidade desta visão quimérica do invisibilismo a que me voto
E a surpresa de uma dependência trivialmente inata pelo fingimento
Por me tornar inverosímil sem condições, sem restrições!

Inquieto-me
Intemporalmente inquieto-me
Para dar materialidade incorpórea à linguagem
Essa linguagem autista dos segredos não-falados
Esta verborização selvagem, esse cais de largada onde o destino está marcado à hora da partida.

Inquietação
Ou o tempo em que o pensamento é sobre-humano
Forçosamente inquieto e sobre-humano.
E se um dia o Inverno se fechasse dentro de uma redoma de vidro fosco e cá fora, à solta, se libertassem os pensamentos rarefeitos de um mundo que não se coordena em seu proveito?
Estava pronto para o frio! Saí envolto em barreiras físicas que me ocultavam o corpo do mundo exterior curioso a tudo o que não existia em mim! Sentia-me transportado por ideias feitas de mim mesmo que se materializavam em pedaços de pano que não eram eu! Só a face e as mãos se mostravam aos outros, tal como eu era: corpo primeiro, eu depois.
Caminhei ao encontro de esparsas ideias que me orientavam momentaneamente. Chovia! Caíam bátegas simples de uma mistura de cinzentos imperfeitos, aos quais nenhuma virtude era reconhecida!
Na rua o cheiro a nada, era o odor da habituação ao mais mundano dos cheiros. Eram cheiros visuais que cristalizavam na memória a impulsividade de percorrer mais um instante. E os instantes sucediam-se sem contornos definidos, sem propósito de mutação.
Como que empurrado sem premeditação, choquei contra uma figura feminina de dimensões brutas, de semblante hiperbolicamente redefenido pela depressão e pela mágoa. A cabeleira era deixada ao acaso sobre um rosto de linhas rectas e maltratadas. O olhar intensamente renovado pela novidade de uma morte anunciada há muito, era como que um rejuvenescimento no seio de um hausto de decadência. Tinha na mão um velho livro, de pequenas dimensões, manuscrito, amarelecido pelos tempos intermináveis que passara na velha biblioteca, do velho sótão, da arrecadação da fábrica dos têxteis que antigamente se situava na esquina da Rua da Fábrica com a do Almada. Sem falsos gestos, estendeu-o e proclamou com uma voz débil mas suportada por uma esperança temerosa:
- Amas o sonho como à própria realidade. Porque para ti eles são a mesma face de distintas formas do existir!

Retratos originais de uma filosofia gráfica (III)

Transformo-me. Todos os dias. Não tenciono auferir de um conhecimento muito abrangente daquilo que me constitui. Quero saber movimentar-me, atingir a meta rápida de uma satisfação efémera. Perene é o que não sou. Tudo aquilo que não alcanço. Sou na verdade definido por aquilo que não faço, por aquilo que não sou, por tudo o que não vêem em mim. Porque esse eu que não se revela nem nunca revelará é a perenidade em mim. É aquilo que sempre me acompanhará.
Não invento novas personagens, sou uma multi-personagem eterna cuja construção inacabada é ela mesma o fim pelo qual me guio e chego a uma certeza em mim. Temo que o seja involuntariamente, ainda que tente sempre novas formas de me definir, essas tentativas são sempre díspares. E é essa diferença de esquemas a que me auto-inflinjo que me torna mutável. Perenemente mutável. Na verdade não quero um objectivo específico, apenas manter-me o que não sou, porque isso diz quem aqui dentro habita!

Quero amar-te e não consigo!

Quero amar-te e não consigo!
Quero fender o teu verso imparável com as minhas palavras de idealista incauto e devaneado. Quero perpetuar a minha voz com o sabor do incontornável cheiro da tua mordedura! Quero fruir do teu incansável êxito e perder o sentido para o meu fim! Quero fazer do meu espaço a tua liberdade! Quero sublimar-me e atingir a tua metafísica genuína, e poder viver nela, sempre! Quero sonhar-te alto e impraticável, sobejamente tolerante ao fascínio do mundo! Quero realizar-te perene e mutavelmente simples. Quero ocasionar-te em cada repetição do instante. Quero cogitar a totalidade de todo o teu ser, sem a fraqueza de perder-te!
E não consigo…!
Estou equipado para o amor, e não consigo fazê-lo acontecer. Sonho uma realidade imperceptivelmente tenaz e fugidia! Não sou mais que o amor idealizado, o único alguma vez perfeito!

Segunda-feira, Novembro 14, 2005

Retratos originais de uma filosofia gráfica (II)

Vivemos no limiar de uma autoridade autista. Um esforço incomportável de inalterância. Uma corda rotativa cuja magnitude de expansão supera a sua ausência de expressão. Uma corda infinita, cercada por vácuo. Uma continuidade onde se inscrevem os momentos inaudíveis a que chamamos passado, presente e futuro.
Mas onde estão esses lugares de contornos tão voláteis quanto a realidade instantânea com que se definem? O que é o presente? Acabou de passar? Está mesmo aqui à porta? E quantos passados já passados eram futuro? E quantos presentes são agora passados mas foram futuros num passado que era posterior a esse presente?
Como que inadvertidamente, os vectores não são concebíveis em experiência verosímil. O repartir do tempo não encaixa numa definição conceptualíssima daquilo que ele próprio define. Não há compartimentos assimiláveis! Há constância de uma única variável! Não há tempos! Há tempo!
O fim e o princípio são as delimitações modificáveis dos vários momentos que nos atravessam, eles próprios em mutação. Fim e princípio co-existem em tudo. Mas não se aplicam ao tempo. Porque ele é soberano sobre todos os momentos! Porque ele é intocável nos seus aluicerces! Nada o condiciona, nada o rege! Não há fim que o silencie, nem princípio que o ilumine!

Terça-feira, Novembro 08, 2005

Silenciados

As vagas de gente confusa. As nuvens e as ruínas na ermida do fogo e do chão fétido. Sem oração nem harmonia, cruzam o gélido hausto de sempre perecer.
Partindo sem mágoa nem lealdade incauta
Ao adquirido futuro.
Vagueiam pela vida deixando fragmentado o protesto.
Caminhando num trilho já realizado por quem nunca visionou a sombra de veludo do nunca querer ascender.
Opressores.
De quem nunca se fez, de quem nunca se quis fazer.
Na morada do herói que nunca se conheceu pela erudição falsa da inverosimilidade da mudança!

Viver mudo numa conversa do sempre ser...

Ensaio contra a rima de um mundo perfeito

Não gosto de regras
As rimas são regras
A ninguém pertence esta escrita
Só a mim
Só àquele que sonha nela
Se evade no outro mundo que não este

Ninguém me dita
Ninguém me critica
Ninguém o pode fazer
Porque isto é meu! De mais ninguém
Quem vem lá avaliar os meus escritos?
Que se atreve?
Quem ousa olhar isto
E dizer que não vale nada?

Atrevam-se!
Queiram invandir um mundo que é só meu!
E depois fujam
Para esse mundo sossegado,
Onde os cães mordem
E as bestas gritam sem paradeiro certo
E todos vivem em haustos sem luz
E cavernas de pensamento hediondo
Onde a rima vos dita as regras
Onde rimais e não sabeis porquê!

Rimem, à vontade
Mas deixem-me em paz!
Rimem-se uns aos outros

Mas eu, se quiser
Não rimo!
E tanto escrevo versos tão longos que não acabam nunca mais
Ou os crio com uma palavra
Só!

Violadores do pensamento!
Sim, vós
Que ousais entrar no pequeno mundo
De uma pequena criança,
Roubar-lhe as fantasias
Saquear todos os sonhos e desejos
Retirar-lhe a infância
Torná-la máquina
Automática
Manipulável

E sou o sonho de mim mesmo
Este mundo perfeito!
Que co-habito em cima dos limites indeformáveis
De uma fronteira que não se finda
E não me divide

Porque nela
Eu posso viver, sendo aquele que me conheço
E não o outro que me habita!

Não me prendam porque não sobrevivo

Quero agora o meu lugar
O meu espaço eterno
Onde não acabo
Nunca!

Retratos originais de uma filosofia gráfica (I)

Sempre a mesma pele. Cansado. Transfigurado pela insónia de uma oportunidade esgotável que se repete como uma esfera de monotonia à qual me aprisiono voluntariamente. A brisa invade-me e presenteia-me com o odor renovável de um anúncio já fruído. E novamente anunciado. A grafia de uma vida, ou de várias vidas, ou de todas as vidas não é a metamorfose infinita com que se reveste no início do incauto processo. É sempre a mesma grafia. É sempre o mesmo odor.
Inesgotável ciclo que se perpetua, hostil e incontornável.
A aprendizagem não decorre da memória, esgota-se nela! A experiência não fortifica o ensinamento, contrapõe-no! Haverá memória no tempo? Haverá experiência cujo tempo não impluda?
Deus? Quem? Imagem idealizável do impossível e eterno esforço? A morte? Vencida repetidamente pelo berço novo? Não. O tempo. Que perenemente nos transporta ao cais do começo. que ocasionalmente nos embarca numa viagem cujo destino está pré-escrito.
Somos porque o somos obrigados a ser. A arte do tempo não tem nada de artístico, nem a sua ciência de científico. É imparável, é indiferente. É desumano. Desconhece hedonismo, despreza o transcendentismo.

Caleidoscópio

Há uma vertigem assinalável que destrói a construção de mim a mim mesmo. Um erudito caleidoscópio cuja multiplicidade de cores ultrapassa a fronteira do meu horizonte atingível...
Rebuscado processo que não define, antes prefere desconceptualizar o esforço autobiográfico a que me voto por medo do incalculável.
É a esta metafísica dos vários que sou, que me condeno, permanentemente! Não sou por inteiro, sou fragmentos. Ou então sou a irreversível e inviolável metamorfose do mesmo. A cascata imprevisível dos diversos que me atravessam.